
"O que vai acontecer com todos os filmes? Inclusive com os meus? O tempo não vai parar. A terra caminha para a extinção." Walter Hugo Khouri
Preparem que esse post terá várias citações.
Não sei o que faço aqui, mas, sendo honesto, ninguém sabe. Aos poucos, aprendo a seguir cercado de dúvidas. É curioso que Paixão e Sombras (1977) tenha me encontrado justo assim. Vi a avaliação da @salviarain, uma resenha curta e os nomes brasileiros foram suficientes pra me instigar. E como esse filme me tocou...
"Não é questão de dizer, eu não tô querendo dizer nada." Walter Hugo Khouri
O filme conta a história de um diretor que já possui um filme inteiro na mente dele, mas não consegue dar vida a esse filme por conta da ausência de uma atriz, do cenário, da própria mente, muitas coisas. Ele faz o uso de uma metalinguagem que é tão próxima da realidade de todo artista que não tem como não se identificar com ele quando você tem essa sensibilidade artística aflorada.
Não entendo nada sobre esse diretor, aparentemente ele tem uma reputação controversa, uns aclamam e outros têm fortes críticas. Eu tive a excelente ideia de ver esse filme antes de ver o vídeo da salviarain porque, mesmo sem nenhuma perspectiva, a gente nota o filme por trás do filme, os filmes que nunca foram concebidos.
Marcelo, protagonista, é claramente um alter-ego do diretor e não precisei ser um grande entendedor de cinema para perceber isso, eu sequer sabia seu nome antes de pesquisar sobre o filme. Às vezes, ele fala em um tom de desabafo. Marcelo é rabugento, arrogante, perfeccionista, frustrado. Sua assistente o descreve como alguém com “carga pesada e escura”.
Mas é como todo artista, talvez. Dentro de nós há um Marcelo que acredita que somos incompreendidos, que nossas histórias precisam ser lidas, sentidas, recebidas. Que temos muito a dizer, que já somos bons agora. Mas é o mesmo Marcelo que pergunta para o cenógrafo Buda o que ele acha de suas obras. Ele sabe a resposta e finge que não se importa com ela, mas a mera pergunta o pede, por favor, que goste, que sinta o que eu quis transmitir.
Sem querer, usei o eu no texto, não ele, mas não vou apagá-lo como normalmente faria, vou colocá-lo em itálico porque há um motivo. Se falo de um filme metalinguístico, faz sentido uma resenha metalinguística, não é?
“Se não entenderem pelo menos poderão sentir. É isso que eu quero. Eu não quero compreensão, quero recepção, se houver.” Walter Hugo Khouri
Claro que o filme tem alguma cenas que são chocantes, dá pra ver inclusive que o diretor faz uma autocrítica, e outras coisas são aparentemente desconexas, um personagem querido se tornando nojento por causa de desenhos, desconforto em algumas cenas, coisas assim. Parece um monte de ideia que juntas formam alguma coisa, sabe? E essa é a intenção. O cenário se passa todo em uma casa que praticamente sufoca de tão vazia e a trilha sonora é muito calculada, mesmo que haja sim um existencialismo burguês, a gente precisa apreciar mais as coisas que não concordamos.
É um filme lento, talvez tão maçante quanto essa resenha, é contemplativo e nos faz desacelerar um pouco na era digital. Tentei vê-lo sem pausas porque é o tipo de filme que pede isso, mas um amigo me mandou o link de uma bota que estou precisando faz tempo. É irônico. É como um estúdio enorme virando supermercado, com a voz do protagonista sumindo em ruídos de caminhões de areia.
Esse é um problema meu, não é falado no filme, mas é o que têm me causado bloqueios criativos: A enxurrada de informação que não abre espaço pra minha criatividade, o meu perfeccionismo que não me permite criar nada. Eu decidi me despir de tudo só por hoje porque esse filme e o Alan Moore me inspiraram. Quarta li V de Vingança e lá tem esse trecho no posfácio:
“Nos dias bons, tudo dá certo e eu redijo um capítulo em quatro ou cinco horas. No ruins, levo as mesmas quatro ou cinco horas, percebo que está um lixo, rasgo tudo e começo outra vez. Repito esse processo quatro ou cinco vezes até me tornar um caco lamuriento que desaba numa poltrona, dizendo que não tem talento e nunca mais vai escrever na vida.” Alan Moore
E a minha vida para aí. Para na parte que me deito na poltrona e passo a acreditar que não sei mais escrever como escrevia quando adolescente. Ler o Alan Moore escrever sobre isso, ou ver um filme sobre o quão sofrido é o processo criativo, me deixa feliz. Faz eu me lembrar que não sou o patinho feio dos personagens desinteressantes ou tramas que nunca vão para frente. A minha mente simplesmente apaga a segunda parte do processo que é marcado por:
“Na manhã seguinte, eu me levanto, faço tudo certo de uma vez e passo o resto do dia lendo os trechos favoritos para minha esposa, filhas ou vendedores ambulantes que têm o azar de bater à minha porta (por isso jamais se case com um desenhista ou escritor. Eles são uma grande roubada, vai por mim!).” Alan Moore.
Como diria o Marcelo, no filme do Khouri, “esse trabalho é algo solitário, mais que qualquer outro” e pra ter a segunda parte do processo criativo preciso de alguém. Não tenho esposa, filhas, não sou desinibido para falar para ambulantes, mas eu tenho internet. É por isso que criei um Substack, quem quiser assinar, coloquei o link, mas todos os textos eu vou acabar postando aqui também.
Queria dar um viva às obras que não são entendidas ou que nunca verão a luz do sol. Viva às histórias incompletas que encontram sua completude em si mesmas. Obrigado por ler até aqui. É um prazer conhecê-lo, meu nome é Lorenzo, escrevo na surdina em uma casa sem nenhum móvel, não sei se vou publicar todos os livros que pensei, ou algum livro.
Não vou reler a resenha, meu perfeccionismo não vai me deixar postar se eu revisar.
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